O Ambiente Sócio-Político e Religioso do Tempo de São José

O Ambiente Sócio-Político e Religioso do Tempo de São José

(Curso de Josefologia – Parte 1 – Capítulo 03 )

O ambiente sócio-político-religioso do tempo de São José propiciava não só uma diversificação efetiva, mas também uma forte discriminação disseminada pelas diferentes camadas da sociedade.
Assim, o grupo dos fariseus, além de primar pela busca da ostentação religiosa com uma série de práticas marcadas por orações, purificações, normas de comportamento e pela observância estrita da lei em todas as situações da vida pessoal, era particularmente inimigo dos romanos e evitava todo e qualquer contato com aqueles que não conheciam a lei ou não eram judeus. Uma sociedade dominada por estrangeiros como esta caracterizava-se por um certo pluralismo partidário assim, um outro grupo, formado pelos chamados zelotas, distinguia-se particularmente pela luta contra os dominadores e, guerrilheiros como eram, não deixavam evidentemente de sempre carregar armas nas mãos. Era um grupo isolado. O seu “apartheid” era constituído sobretudo pelas grutas das montanhas na região da Galiléia. Outro grupo que contribuía bastante para acentuar esta fisionomia, secionada do povo judeu era formado pelos monges essênios, os quais, deste o século II a.C., se constituíram em comunidade, vivendo nas margens ocidentais do mar Morto, numa localidade que hoje conhecemos como Quamram. Esse grupo levava a vida ascética, acompanhada por uma disciplina muito rígida. Basta dizer que o membro da comunidade que proferisse uma blasfêmia era automaticamente expulso do seu meio. Esses monges solitários cultivavam o solo, consagravam o tempo ao estudo e, sobretudo, empenhavam-se em levar uma vida muito ascética.

Não bastasse tudo isso, ocorreu no meio deste povo um grande “racha”, que fomentou uma divisão profunda deste século X antes de Cristo, e que continua até os nossos dias, entre os judeus e os samaritanos. Esta ferida aberta e ainda não cicatrizada ocasionou um grande impasse na unidade desse povo. Dali por diante, a Samaria passou a ser considerada pelos judeus uma terra maldita e seus habitantes começaram a ser tratados como estrangeiros e pagãos, odiados e indignos de pertencer ao povo de Israel. Para os judeus, os Samaritanos eram tidos desde então como heréticos e impuros, pois não aceitavam mais o monte Sião como um monte santo, mas ao contrário, escolheram o monte Guarizim como lugar santo, onde construíram um templo, e que não deixou de representar para os judeus uma grande afronta a Deus e, portanto, uma idolatria.
Dominados pelas autoridades de Roma, os cidadãos hebreus, entre eles São José, tinham como líder político Herodes, um caudilho imposto pelo poder real de Roma. Herodes foi nomeado rei dos judeus pelo Senado romano no ano 46 a. C. Esse indumeu de mau caráter e muito autoritário espalhou no meio do povo sofrido e desolado inúmeras confusões e perseguições. Mandou matar todos aqueles que se mostravam contrários à sua política, inclusive sua esposa, sua sogra e seus dois filhos. Apesar dessas atrocidades e das inúmeras injustiças que cometeu arbitrariamente, os anos de seu governo transcorreram num clima de relativa estabilidade política e de prosperidade, o que fez com que lhe fosse atribuído o título de político astuto e administrador hábil.
Era justamente nesse ambiente instável, hostil e opressor que São José, alimentado por sua religião e fé inabalável em seu Deus, esperava, como os demais cidadãos deste povo , a libertação através de um grande acontecimento, prometido por Deus ao longo dos séculos e anunciado pela boca dos profetas, na pessoa do Messias.
Embora fosse desconhecido e ignorado nesse ambiente tenso, São José não passava desapercebido aos olhos de Deus, pois se fazia mister que a estada do Messias prometido no meio desse povo tivesse os préstimos de um homem magnânimo como ele, a tal ponto que o Filho de Deus o preferisse entre todos os grandes da terra, para revestir-se da sua filiação e assumir a sua condição humana e social.
Considerando toda a problemática latente na sociedade de José, podemos concluir que havia poucas possibilidades de desenvolvimento para seus membros, com exceção é claro, de alguns poucos privilegiados. Além do mais, este povo não se distinguia por riquezas de bens materiais, levando em consideração que era explorado pelos dominadores romanos e o solo onde habitava era pobre, como o é até hoje, e desprovido de recursos naturais. A escassez de chuvas resultante das condições climáticas, a técnica agrícola rudimentar e a dependência de muitas coisas, aliada a outros fatores, influíam profundamente na precariedade das condições econômicas e sócio-políticas do povo. A classe rica da Palestina, devido às suas possibilidades, tinha uma abertura acentuada para a civilização: conhecia e apreciava o teatro, o belo e a literatura, e também conhecia e praticava esportes como o lançamento de dardos, a corrida, a maratona, a luta etc. À classe pobre, da qual José fazia parte, não restava outra alternativa senão trabalhar e sofrer privações, explorada pela exorbitância dos impostos cobrados pelos romanos.
O regime alimentar da classe pobre era muito simples, como era, aliás as normas alimentares dos antigos hebreus. Eles faziam duas refeições por dia, uma de manhã e outra , a principal, bem a tardezinha.
O pão era o alimento da segunda refeição, pois devia constituir um luxo na mesa de José, assim como na de todos os pobres, na primeira refeição. Quase não comiam carne, mas em compensação, não lhes faltavam frutas como tâmaras, muito comum naquele clima, e também romãs e figos. Não faltavam óleo e vinho, leite, ovos e peixes pescados no lago de Genesaré. Aliás, a existência desse lago, também conhecido pelos judeus como mar da Galiléia devido à sua extensão e profundidade, é elemento que propicia uma beleza indescritível para quem o visita. A presença desse lago, tornou toda aquela religião um solo fértil, onde a planta cresce e permite qualquer tipo de vegetal, porque o clima é favorável. O historiador Flávio Josefo, encantado com essa beleza rara, já se expressava: “Até mesmo a noz, que aprecia terras frias, cresce ali em abundância, ao lado da palmeira, que prefere o calor, da figueira e da oliveira, às quais convém uma temperatura mais amena. Dir-se-ia que ali a natureza se divertiu, colocando os contrastes lado a lado.”
Não havia nada de luxuoso ou aparatoso na casa de um judeu pobre. Com exceção de Jerusalém e de alguns outros pontos estratégicos para os romanos na Palestina, não havia moradias luxuosas. As casas eram muito simples, construídas com paredes de pedras calcárias ou com tijolos de barro cozido ao sol e cobertas com tetos de barro amassado. Os moradores dormiam no chão ou em esteiras feitas especialmente para esse fim. Por isso, uma das primeiras coisas que a dona-de-casa fazia logo de manhã era desocupar as dependências da casa das esteiras ou das cobertas usadas para dormir.
Como salientamos, o povo simples vivia num ambiente marginalizador e classista. As mulheres eram as que mais sofriam com esse tipo de opressão. Nesse contexto social, os homens eram tudo e as mulheres não tinham voz nem vez. Eram consideradas inferiores aos homens, limitando-se ao trabalho caseiro: cozinhavam, faziam limpeza, iam buscar água na fonte, lavavam a roupa e nada mais. As mulheres podiam participar das funções nas sinagogas, porém tinham lugares à parte. O mesmo acontecia no Templo de Jerusalém, onde ocupavam os lugares situados atrás do espaço reservado aos homens, bem próximo da praça comum, aberta ao comércio de animais destinados ao sacrifício no próprio Templo. Nas cerimônias não lhes era permitido usar a palavra nem tinham autoridades para ler a Lei, a “Torá”. Por esse motivo, o testemunho de uma mulher não era levado em consideração por ninguém, e em público nenhum homem “de boa reputação” cumprimentava uma mulher (Enquanto a mulher hebréia era restringida neste ambiente marginalizador, só podendo sair à rua com muita cautela, a mulher romana gozava de ampla liberdade, freqüentava lugares públicos, ia aos jogos e aos circos, assistia aos espetáculos dos gladiadores, estudava, sabia ler e escrever poesias, podia escolher o marido e pedir-lhe sem inibição o divórcio, e até administrava os seus próprios bens.)
Questões para o aprofundamento pessoal
1. Descreva o ambiente sócio-político e religioso do tempo de José.
2. Descreva o regime alimentar e a situação da mulher no tempo de José.