Como confiar em Deus em tempos de sofrimento?

O sentido do sofrimento é completado em Cristo, que se doa por amor na Cruz. 

São João Paulo II dizia que “o sofrimento parece ser, e é mesmo, quase inseparável da existência terrena do homem”. Ou seja, em maior ou menor grau, todos passam por dores, perdas e sacrifícios. Porém, com tantas dificuldades, que muitas vezes parecem insuperáveis, como confiar em Deus?

A perda de alguém querido, uma demissão, a exaustão, a fome, doenças, um acidente, problemas financeiros ou, até mesmo, a dor do parto. Ao longo da vida, cada um de nós já foi ou será confrontado com pelo menos um desses sofrimentos.

Diante dessa realidade, devemos lembrar do que nos diz o próprio Jesus. “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me” (Lc 9, 23). Assim, percebemos que não é possível ser cristão sem passar por sacrifícios. 

E é em Cristo que encontramos o sentido do sofrimento. Embora não tenha conhecido o pecado, viveu o cansaço, a incompreensão, foi hostilizado, escarnecido, flagelado e morto. Conviveu com doentes, com viúvas e com pais que perderam seus filhos.

O Redentor nos trouxe a Boa-Nova, mostrando que, por mais que existam sofrimentos nesta terra, se permanecerem firmes na Palavra, “serão consolados” (Mt 5,5). 

Por meio do sacrifício obediente na Cruz, feito por amor, Ele nos abre as portas dos Céus e dá sentido ao nosso sofrimento, com a esperança da vida eterna. 

O sofrimento na vida do homem 

Desde o Antigo Testamento, vemos expressões do sofrimento humano. Uma das mais conhecidas é a história de . Sem culpa nenhuma, perdeu tudo que tinha, incluindo bens e a própria família, chegando a ser atingido por uma grave doença.

Apesar disso, não perdeu a fé. Então, como explicar as dificuldades enfrentadas por esse homem justo? Na Carta Apostólica Salvifici Doloris, São João Paulo II afirma que esse é um mistério, cuja compreensão não está ao nosso alcance.

Para compreender melhor essa resposta, precisamos lembrar que existem os sofrimentos que são consequências das nossas ações. Como exemplo, podemos tomar uma pessoa que perdeu o emprego, porque não cumpriu com suas responsabilidades. Todavia, o Santo afirma que:

“Se é verdade que o sofrimento tem um sentido como castigo, quando ligado à culpa, já não é verdade que todo o sofrimento seja consequência da culpa e tenha caráter de castigo. A figura do justo Jó é disso prova convincente no Antigo Testamento. […] Se o Senhor permite que Jó seja provado com sofrimento, fá-lo para demonstrar a sua justiça. O sofrimento tem carácter de prova”.

A partir disso, observamos que o sofrimento como provação não tem o simples propósito de nos causar dor. Pelo contrário, as provações são formas de nos fazer crescer na fé, convites a confiar em Deus. 

O sofrimento deve servir à conversão, isto é, à reconstrução do bem no sujeito, que pode reconhecer a misericórdia divina neste chamamento à penitência. A penitência tem como finalidade superar o mal que, sob diversas formas, se encontra latente no homem, e consolidar o bem, tanto no mesmo homem, como nas relações com os outros e, sobretudo, com Deus”, relata São João Paulo II. 

Ter essa visão, pode nos ajudar a passar pelas dificuldades, tendo a certeza de que o Pai cuida dos seus filhos

Encontrando sentido no sofrimento

O desespero é o sofrimento sem sentido. Era assim que o psiquiatra Victor Frankl explicava a falta de esperança que pode surgir diante das tribulações. Para isso, ele resgatava um pensamento filosófico que aponta que quem tem um “porquê” enfrenta qualquer “como”

Considerado como fundador da Logoterapia, o médico judeu ficou preso em campos de concentração durante a 2ª Guerra Mundial. Lá, conviveu de perto com o sofrimento. 

Em uma entrevista, relatou que, enquanto estava como prisioneiro, se deparou com dois colegas que pensavam em cometer suicídio. Ao perguntar o motivo, ambos comentaram que não esperavam mais nada da vida.  

Com isso, Frankl respondeu: “não é a vida que espera algo de você?”. Assim, ambos encontraram motivações para passar por aquelas circunstâncias. 

Outra trajetória marcada pelo sofrimento é a da Serva de Deus Chiara Corbella, que morreu aos 28 anos de idade, em 2012. Casada com um jovem também católico, engravidou. Porém, a criança não tinha cérebro e foram aconselhados a interromper a gestação. 

Apesar disso, certos de que havia uma alma, decidiram continuar. Depois de nascido, o bebê viveu por meia hora, mas foi batizado e alcançou o céu. Tiveram uma 2ª gestação, entretanto, a criança também morreu logo após nascer. 

E então, o casal foi agraciado com a 3ª gestação, desta vez saudável. Contudo, durante a gravidez, Chiara descobriu que tinha um câncer na língua. Precisaria iniciar imediatamente o tratamento, mas, como prejudicaria o bebê, decidiu não fazê-lo.

Quando a criança nasceu, o câncer já era irreversível. Mesmo diante do sofrimento, a jovem soube confiar em Deus e, antes de morrer, deixou uma carta para o filho. No texto, falava do Céu e do caminho que a criança deveria seguir para chegar até lá.

Como confiar em Deus

São José Marello nos orienta a suportar o mal com resignação. Para isso, precisamos firmar raízes no Senhor, por meio de uma espiritualidade fecunda. 

  • Reserve um momento diário de oração;
  • Leia sobre o sofrimento nas Sagradas Escrituras;
  • Medite sobre a Paixão do Senhor;
  • Leia a biografia dos Santos;
  • Medite sobre a morte e o sentido da vida;
  • Procure sempre ajudar alguém, para dizer, como Carlo Acutis disse à mãe no leito de morte: “não tenha pena de mim, há quem sofra muito mais”;
  • Reze a Nossa Senhora, Rainha das Dores.

Enquanto estivermos no “vale de lágrimas”, existirão sofrimentos. No entanto, com sua ressurreição, Cristo já nos deu a maior alegria de todas: a vida eterna. Para vivê-la ao lado dEle, precisamos nos santificar aqui. Logo, esteja disposto a sempre confiar em Deus, mesmo nas tribulações.

Benditas sejam até as trevas quando as adensa a mão do Senhor. (São José Marello).

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