Considerações sobre São José, Esposo de Maria e Pai de Jesus

Considerações sobre São José, Esposo de Maria e Pai de Jesus

17 considerações sobre São José publicadas na série Estudos Josefinos.

Associação São José Guarda do Redentor

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Considerações sobre São José, Esposo de Maria e Pai de Jesus

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE SÃO JOSÉ (I)

Quem é São José?  Quais as suas características? Qual é o modelo de santidade que ele representa para nós? Estas perguntas e tantas outras são interrogações  que nós, seus devotos, temos o  direito de fazer. Diante disso, propomo-nos, numa série de artigos, “Considerações sobre São José”, a refletir sobre este  assunto.

De São José, na verdade, sabemos muito pouco: não temos referências do ano nem do lugar onde nasceu, não sabemos o nome de sua mãe e existem controvérsias a respeito do nome de seu pai. Dele não nos foi transmitida uma única palavra, entretanto foi a ele que Jesus se submeteu como Filho e foi com ele e nele que Maria encontrou um amor muito  grande e a força para a sua vida terrena. Se é verdade que ao referir-se a ele os evangelhos não usam muitas palavras, é contudo indiscutível que sua pessoa está envolvida por um halo de luz tão cristalino, que resume toda a essência do que ele representava, quando afirmam que “era um homem Justo” (Mt 1,9). Era Justo com Deus, depositando nele durante toda a sua vida a mais profunda confiança. Era Justo com o próximo, pois vivia com Jesus e Maria na mais perfeita caridade. Era Justo consigo mesmo, pois foi sempre  fiel à vocação que recebeu.

Este hebreu, descendente de Davi, tornou-se esposo de Maria (Mt 1,16.18.20.24), e a autenticidade desse matrimônio é tão clara e forte que São José era considerado por todos como o pai de Jesus, e  Jesus era tido como seu filho (Lc 2,27.33.41.48; Mt  13,55). Portanto, José criou e nutriu o Salvador, conviveu com ele e com sua esposa mais do que qualquer outra pessoa neste mundo.

A José couberam a responsabilidade, o  peso, os riscos de sua pequena e singular família; “para ele o serviço, o trabalho, o sacrifício, na penumbra do quadro evangélico, no qual é gostoso contemplá-lo”. Um homem que recebeu uma missão única e  grandiosa, a missão de cuidar do Filho de Deus e de sua mãe, a missão de cooperar na encarnação divina e na salvação dos homens. Para cumpri-la, ele não mediu esforços, converteu toda a sua vida ao amor doméstico na total oblação de si, pois toda a sua vida foi oferecida ao serviço e ao sacrifício da encarnação de Jesus.

Sua vida não foi fácil; a encarnação do Filho de Deus, definida por São Bernardo como “o acontecimento de todos os séculos”, era para ele um mistério muito  pesado, mais isto mereceu-lhe na terra a honra de ser o único homem a compartilhar com Deus Pai a idêntica invocação filial de Jesus, pois seus sentimentos para com Jesus foram as expressões mais puras e genuínas de um amor autenticamente paterno, como bem expressou o Papa Pio IX ao afirmar que “José desenvolveu para com Jesus uma responsabilidade de pai, morou com ele na mesma casa, abraçou-o, beijou-o e nutriu-o com afeto paterno; teve para com ele, por uma especial graça celeste, todo o amor natural, toda a afetuosa solicitude que um coração de pai pode conhecer”. Portanto, Jesus foi verdadeiramente amado na sua família, não lhe faltou afeto e gozou de todas as vantagens de viver numa família equilibrada  e com  pais virtuosos.

Porque São José, juntamente com Maria, recebeu tão grande missão e desenvolveu-a com perfeição, a Igreja não se cansa de confiar-lhe a vida espiritual de  todos os seus filhos, considerando que a vida cristã de cada um de nós não é outra coisa senão buscar Jesus, reproduzi-lo em nossa vida com todos os seus sentimentos, e para isso São José foi e continua sendo um mestre formidável.

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE SÃO JOSÉ (II)

I- Contexto sócio-cultural

São José nasceu na Palestina, território onde hoje se situa o Estado de Israel. Este se localiza na parte oriental do mar Mediterrâneo e é formado por uma longa faixa de terra de 240 por 15km2. Possui uma planície de terras ricas e férteis, cortada por uma área montanhosa com colinas de 500 a 900 metros, espalhadas por suas três regiões: Galiléia, Samaria e Judéia. É atravessado pelo rio Jordão, que forma em seu percurso o lago de Genesaré, também chamado mar da Galiléia, onde Jesus e seus apóstolos pescavam. Esse lago tem uma profundidade de até 45m e 2 km de comprimento por 11 de largura. O rio Jordão, muito importante na vida do povo hebreu, foi palco de inúmeros acontecimentos, basta lembrar que em suas margens o profeta João Batista pregava a conversão e batizava, e que em suas águas o próprio Jesus foi batizado. Após percorrer 350 km, ele deságua no mar Morto, que possui 85 km de comprimento por 16 de largura, e atinge uma profundidade de até 400 m. Suas águas, cheias de sal, não permitem nenhum tipo de vida.

A Palestina de José tem a sua história marcada, desde muitos séculos antes do  nascimento de Jesus, por lutas, conquistas, derrotas, monarquias, deportações e exílios. Foi envolvida por uma densa atmosfera política, por uma ânsia de libertação, e alimentada por uma fé intensa em Javé, embora frequentemente contaminada por idolatrias e infidelidades.

São José nasceu na época da dominação romana. De fato, desde o ano 63 antes de Cristo o seu povo vivia sob o jugo dos romanos, que introduziram na Palestina muitas novidades e progresso, como construções imponentes, mas também ídolos e templos profanos para cultuar os deuses, o que não deixava de constituir uma afronta para o povo de José, que se julgava o único a conhecer o Deus verdadeiro. Esse comportamento eclético, incompatível com as aspirações dos hebreus, gerou várias revoltas, guerrilhas e revoluções armadas por parte de facções do povo, sempre com o intuito de libertar-se da dominação estrangeira.

Mas, se tantas adversidades contrastavam a vida deste povo, algo de muito especial o unia: o Templo de Jerusalém. Em volta dele girava toda a vida religiosa, social e política dos hebreus. Construído pelo rei Salomão no século X a.C. e destruído por Nabucodonosor em 587 a.C., foi reconstruído em 516 a.C. por Zorobabel, e depois novamente destruído por Herodes por volta do ano 20 a.C., quando José já era um adolescente, para que outro, mais suntuoso e rico, tomasse o seu lugar. Esse último só ficou pronto  em 64 d.C.

José, fruto do seu tempo, estava envolvido por esta atmosfera mística e tensa ao mesmo tempo. Conhecia bem o Templo e, como bom hebreu, também oferecia seus sacrifícios a Deus. O átrio do edifício sagrado era palco todos os dias, desde manhã bem cedo, de sacrifícios e imolações de  animais, que ocupavam todos os altares, construídos com grandes blocos de pedras. Como bom hebreu, José pagava 10% de impostos ao Templo, taxa que contribuía para sustentar os cerca de 20 mil funcionários, do mais alto grau sacerdotal ao empregado mais humilde, que ali prestavam serviços.

José tinha consciência das distinções de classe e do modo de pensar de sua sociedade. Percebia a existência de uma hierarquia e sabia que no topo da pirâmide social se encontrava a classe dos saduceus, um grupo poderoso, constituído pelas pessoas mais ricas e influentes, pelos sacerdotes e administradores do Templo. Esse grupo era  intransigente na observância da lei mosaica e alheio às mudanças, sobretudo aquelas que pudessem afetar sua posição na sociedade. Gozava de privilégios, pois colaborava com os romanos. Apreciava a ordem externa e zelava pela conservação do Templo e pelo andamento ritualístico dos sacrifícios.

CONSIDERAÇÕES SOBRE SÃO JOSÉ (III)

O ambiente sócio-político-religioso que existia no tempo de São José propiciava não só uma diversificação efetiva, mas também uma acentuada discriminação, disseminada pelas diferentes camadas da sociedade. Assim sendo, o grupo dos fariseus, além de primar pela busca de ostentação religiosa, com uma série de observâncias como orações, purificações, normas de comportamento, e pela observância da lei em todas as situações da vida pessoal, era particularmente inimigo dos romanos e evitava todo e qualquer contato com aqueles que não conheciam a lei ou não eram judeus.

Outro grupo, formado pelos zelotas, distinguia-se especialmente pela luta contra os dominadores e, como guerrilheiros, carregavam sempre armas nas mãos. Viviam com freqüência isolados em refúgios, entre as grutas das montanhas, sobretudo as da região da  Galiléia.

Outro grupo que contribuía para a fisionomia pluralista do povo judeu era formado pelos essênios, que desde o século II a.C. se constituiu em comunidade, vivendo nas margens ocidentais do mar Morto, numa localidade que hoje conhecemos como Qunràm. Esse grupo levava uma vida ascética, acompanhada de uma disciplina muito  rígida, basta dizer que o membro que proferisse uma blasfêmia era expulso da comunidade. Cultivavam o solo, estudavam e se empenhavam numa vida de perfeição.

Se tudo isso não bastasse, ocorreu neste povo um grande “racha”, que fomentou uma profunda divisão desde o século X antes de Cristo, e que continua até os nossos dias, entre judeus e samaritanos.

Com esse impasse, a Samaria passou a ser considerada pelos judeus uma terra maldita e seus habitantes eram tratados como estrangeiros e pagãos, indignos de pertencer ao Povo de Israel. Eram tidos como heréticos e impuros, pois não aceitavam mais o Monte Sião como monte santo. Para eles, o monte santo era o Garazim, lugar onde construíram um Templo, o que não deixou de representar para os judeus uma grande afronta a Deus e, portanto, uma idolatria.

Dominados pelas autoridades romanas, os cidadãos hebreus, entre eles São José, tinham como seu líder político Herodes, imposto por Roma. Herodes foi nomeado rei dos judeus pelo Senado romano no ano 46 a.C. Esse indumeu, por seu mau caráter e grande autoritarismo, espalhou no meio deste povo sofrido e desolado inúmeras confusões e perseguições. Mandou matar todos aqueles que se mostravam contrários à sua política, inclusive a esposa, a sogra e os dois filhos. Apesar dessas atrocidades e das injustiças que cometeu, os anos de seu governo transcorreram em clima de relativa estabilidade política e prosperidade, o que fez com que lhe fosse atribuído o título de político astuto e administrador hábil.

Era neste clima de hostilidade que São José, alimentado por sua religião, esperava, como todos os demais membros de seu povo, a libertação através de um grande acontecimento, prometido por Deus na pessoa do Messias. Embora fosse desconhecido e ignorado neste ambiente tenso, São José não passava despercebido aos olhos de Deus, pois era preciso que na terra a estada do Messias prometido tivesse os préstimos de um homem como ele, a tal ponto que o próprio Filho de Deus o preferisse entre todos os grandes da terra, para revestir sua filiação e assumir daí sua condição humana e social.

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE SÃO JOSÉ (IV)

Uma sociedade fracionada e oprimida, como a do tempo de José, naturalmente não oferecia muitas possibilidades de desenvolvimento a todos os seus membros, a não ser a alguns poucos privilegiados. Além do mais, o povo hebreu não se distinguia por riquezas de bens materiais, levando-se em consideração que era explorado pelos dominadores romanos e que seu próprio solo era pobre e desprovido de recursos naturais. A escassez de chuvas, resultante das condições climáticas, a técnica agrícola rudimentar e a dependência de muitas coisas, aliadas a outros fatores, influenciavam profundamente na precariedade das condições econômicas desse povo.

A classe rica da Palestina, justamente por ter possibilidades, era marcada por uma acentuada abertura para a civilização: conhecia e buscava o teatro, o belo e a literatura, e praticava esportes tais como o lançamento de dardos, a corrida, a maratona, a luta, etc. À classe pobre, da qual fazia parte José, não restava outra alternativa senão trabalhar e sofrer privações, explorada pela exorbitância dos impostos cobrados pelos seus dominadores.

O regime alimentar da classe pobre era muito simples, como aliás, eram as normas alimentares dos antigos hebreus. Estes faziam duas refeições por dia, uma de manhã e outra ao anoitecer. Quase não comiam carne, mas em compensação não lhes faltavam frutas, tais como tâmaras, muito comuns naquele clima, romãs e figos. Também pão, leite, ovos e peixes pescados no lago de Genesaré eram bastante comuns. Aliás, a existência desse lago, também conhecido pelos judeus como mar da  Galiléia devido à sua extensão e  profundidade, é elemento propiciador de uma beleza indescritível para quem o visita. A presença do lago tornou toda aquela região um solo fértil, onde a planta cresce e permite o cultivo de qualquer tipo de vegetal, porque o clima é favorável. Já o historiador Flávio Josefo, encantado com essa rara beleza, assim se expressava: “Até mesmo a noz, que gosta de terras frias, cresce ali em abundância, ao lado da palmeira, que prefere o calor, da figueira e da oliveira, às quais convém uma temperatura mais branda. Dir-se-ia que ali a natureza se divertiu, colocando os  contrastes lado a lado”.

  Nada de luxuoso ou aparatoso se encontrava na casa de um judeu pobre. Com exceção de Jerusalém e de alguns outros pontos estratégicos para os romanos, na Palestina não havia moradias luxuosas. As casas eram muito simples, construídas com paredes de pedras calcáreas ou com tijolos de barro cozido ao sol e cobertas com tetos de barro amassado. Os moradores dormiam no chão ou em esteiras feitas especialmente para esse fim. Por isso, uma das primeiras tarefas da dona-de-casa, logo pela manhã, era desocupar as dependências da casa tomadas pelas esteiras ou cobertas, usadas para dormir.

Como salientamos, o povo simples vivia num ambiente marginalizador e classista. As mulheres eram as que mais sofriam com esta opressão. Eram consideradas inferiores aos homens, limitando-se ao trabalho caseiro: cozinhavam, faziam a limpeza, iam buscar água na fonte, lavavam a roupa e nada mais. Durante as funções nas Sinagogas, ficavam em lugares à parte, o mesmo acontecendo no Templo de Jerusalém, onde ocupavam os lugares situados atrás do espaço reservado aos homens,  bem próximo da praça comum, aberta ao comércio de animais destinados aos sacrifícios no Templo. Nas  cerimônias não lhes era permitido fazer uso da palavra nem tinham autoridade para ler a Lei, a “Torá”. Por esse motivo, o testemunho da  mulher não era levado em consideração por ninguém, e em público nenhum homem “de boa reputação” a saudava.

José, conforme nos ensinam os relatos da infância de Jesus, era um carpinteiro. Esta profissão ele a herdou de seu pai, pois era costume o pai transmitir a profissão para o filho. Portanto, desde adolescente, ele pertencia à categoria dos artesãos. Analisando os costumes da época, podemos com toda a probabilidade inferir que José era dono de uma oficina, portanto mais que um simples carpinteiro. Não fabricava somente móveis, portas e janelas, mas também possuía outras aptidões, segundo as necessidades da pequena  cidade de Nazaré, onde morava, e que com certeza não oferecia possibilidades de mão-de-obra especializada. Por isso, os nazarenos recorriam a José quando precisavam dos serviços comuns de um artesão.

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE SÃO JOSÉ (V)

Os evangelistas nos legaram que a profissão de São José era carpinteiro, ou melhor, mais que simples carpinteiro: artesão. Portanto, um homem bastante conhecido, de confiança e benquisto pelos habitantes de Nazaré. Podemos supor que desenvolvia a maior parte de seu trabalho num canto de sua humilde casa. Naturalmente, sua profissão facilitava o contato com muitas pessoas, inclusive de fora de Nazaré e das regiões circunvizinhas. Nesse sentido, não é lógico afirmar que José tenha vivido toda a sua vida confinado em seu pequeno mundo de trabalho.

Seu dia de trabalho começava bem cedo, como era costume na época. Mas, já às 9 horas, fiel à tradição de seu povo, interrompia as atividades para recitar a oração prescrita pela lei. Ali mesmo, no  recanto de sua oficina, de pé, voltado para o Templo de Jerusalém e com as mãos erguidas para o céu, rezava esta oração: “Escuta, Israel: O Senhor é o nosso Deus, o Senhor é um só. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças…” Após cumprir essa obrigação religiosa, retornava ao serviço: afinal, era com o suor de seu rosto, com a força de seus músculos e com os calos de suas mãos que tirava o sustento para si e para sua família.

Ao meio-dia, outra interrupção no trabalho e, de novo outro  momento de oração, no qual rezava lembrando a obediência aos mandamentos divinos, o amor exclusivo do coração e da alma ao Senhor Deus e a promessa das bênçãos divinas. Depois dessa oração, a primeira parte da jornada de trabalho estava terminada. Fazia então a refeição principal do dia, que era ainda considerada como parte da manhã. Após um breve descanso, voltava à sua atividade, mas às 15 horas estava prescrito outro intervalo para o terceiro momento de oração do dia praticado pelo bom israelita. Nessa breve oração rezava recordando as proezas da saída do Egito, na qual Javé se colocou como Deus do povo. Portanto, competia ao povo lembrar e pôr em prática todos os mandamentos. Retomava novamente o trabalho até o fim da jornada.

Assim, aquele pequeno recanto da pobre casa de Nazaré foi o palco que acolheu por muitos anos as três personagens mais importantes que viveram nesta terra: Jesus, Maria e José. Seus dias transcorriam calmamente: nada ali se manifestava de grandioso, portentoso ou extraordinário. O próprio José, imperturbável ao barulho da serra e do martelo, procurava dia após dia cadenciar tudo com suas orações e meditações. Assim, animado por esse espírito, todos os seus trabalhos assumiam um significado profundo e imenso diante de Deus. Afinal, era ali, de maneira escondida, que se processava um grande mistério: um pobre artesão ensinava ao próprio Filho de Deus uma profissão, e Jesus obedecia a ele colocando em prática todos os seus  ensinamentos.

Até aqui, sem mesmo ter considerado todos os valores que brotavam de sua missão, podemos admirar a grandeza deste homem que Deus escolheu para o sublime encargo de pai virginal de Jesus e  esposo castíssimo de Maria. Na verdade, José se apresenta como um homem completo para o seu tempo. Era seguro de si, possuía todos os requisitos de um homem instruído para a sua época, embora não fosse um homem de cátedra, mas um homem prático, capaz de tomar decisões coerentes e pertinentes à sua missão. Esse artesão desconhecido foi, efetivamente, um gigante do espírito. Descendente da tribo de Judá e da antiga dinastia da família do rei Davi, teve Nazaré da Galiléia como sua morada e a carpintaria como local de seu trabalho. Eis uma breve síntese deste leigo que viveu na Palestina no tempo do dominador rei Herodes, tempo em que imperavam com todo esplendor César Augusto e Tibério.

Esta personagem saiu naturalmente da simplicidade e do dia-a-dia e, com a sublime escolha por parte de Deus, tornou-se o elo fundamental de ligação com a genealogia messiânica, particularmente por meio da aceitação imediata dos  desígnios de Deus a seu respeito e  da disposição em cumpri-los. Sua característica foi justamente o devotamento total de sua vida ao serviço da encarnação e da missão redentora do Filho de Deus, missão única e grandiosa. Por isso mesmo, foi enriquecido abundantemente com dons especiais por parte de Deus, e sua vida, iluminada por uma luz divina.

É da missão maravilhosa deste pobre, silencioso e humilde artesão de Nazaré que, no escondimento e na simplicidade, proporcionou, com seu trabalho e amor, a Jesus menino o crescimento “robusto e cheio de sabedoria”.

 

 CONSIDERAÇÕES SOBRE SÃO JOSÉ (VI)

    1. Pessoa e Mistério

Nas “Considerações” que fizemos até aqui, procuramos projetar, ainda que palidamente, o contexto sócio-cultural-religioso do tempo em que viveu São José. Toca-nos agora concentrar mais nossas atenções na pessoa e no mistério que nosso ilustre santo personagem desenvolveu no cumprimento fiel de sua vocação ao lado de Jesus e de Maria, sua esposa.

Sua vida não foi de modo algum fácil: a responsabilidade que Deus depositou em suas mãos foi para ele um ministério por demais oneroso, assim como teria sido para qualquer outra pessoa Deus quis inserir seu Filho Jesus na Terra entre os homens da forma mais normal possível, de modo que não aparecesse como um “filho caído do céu”. Por isso escolheu São José como esposo legítimo de Maria, mãe de Jesus, para que viesse também a ser considerado como seu pai legítimo em relação ao matrimônio. Dessa forma, o obscuro carpinteiro de Nazaré proporcionou ao próprio Filho de Deus seu “estado civil”, sua categoria social, sua condição econômica, uma experiência profissional, um ambiente familiar e uma educação humana.

Por isso afirmei que sua missão foi muito exigente, não se limitando apenas a uma assistência puramente externa providenciando ao menino e à  sua mãe o que era necessário e defendendo-os dos perigos. José foi para Jesus pai no verdadeiro sentido da palavra. Seu amor por Jesus foi genuíno e autenticamente paterno. O Papa Pio IX soube expressar muito bem este rico quadro da vida de José quando disse que ele teve para com Jesus, por um especial dom celeste, todo o amor natural, toda a solicitude afetuosa que um coração de pai pode conhecer.

Podemos assim afirmar que José foi na terra o único homem que teve a  grandíssima honra de compartilhar com o próprio Deus Pai a idêntica invocação filial de Jesus. Essa honra e ao mesmo tempo grande responsabilidade lhe foi comunicada por vontade expressa de Deus – “… você o chamará com o nome de Jesus…” (Mt 1,21) – conferindo-lhe dessa forma a dignidade de sua paternidade.

Sua vocação e o conseqüente desenvolvimento de sua especial e importantíssima paternidade, conferiu-lhe um amor sem reservas nem reticências, um amor expresso em serviço, sacrifício e generosidade. Ele não só viu e ouviu o Filho de Deus, mas carregou-o no colo, guiou-o nos primeiros passos, abraçou-o, beijou-o, nutriu-o. Jesus, como Deus, não tinha nada para aprender, mas como homem, tinha tudo para ser ensinado e José foi seu primeiro mestre e educador. Sua tarefa foi de educar o Messias para o trabalho e para as experiências da vida.

Mas se sua importantíssima missão de esposo e de pai foi uma tarefa sem precedentes, difícil e empenhativa, a compreensão e aceitação desse ministério – caracterizado como o “acontecimento de todos os séculos” – não lhe foi igualmente fácil. Aliás, foi acompanhada de muita angustia,  sofrimento, provação e dúvidas.

Deus comunicou-lhe a paternidade de uma maneira misteriosa e até esquisita… quando, depois que Maria ficou ausente três meses da cidade de Nazaré, de repente e de modo surpreendente deparou-se com um dilema sem saída: sua esposa estava grávida e os sinais de que teria um filho se tornavam cada vez mais evidentes. Eram casados, mas não conviviam na mesma casa. Maria, mesmo, havia respondido ao anjo que  não conhecia homem algum (cf. Lc 1,34), o que significava que ela e José não tinham convivido conjugalmente, não tinham se relacionado sexualmente.

Esta situação era dramática para ele, pois como devia comportar-se, embora estivesse convencido da inocência da esposa? Maria não dizia nada, embora compartilhasse do sofrimento do esposo e sentisse a necessidade de lhe esclarecer tudo, para lhe restituir a serenidade, mas como tomar essa iniciativa, se tudo estava no desígnio de Deus?

José, por sua vez, não ousava quebrar aquele silêncio divino e  sagrado. Por isso, tomou a decisão de deixá-la sem ninguém saber, não porque achasse que ela tivesse alguma culpa, tanto que nem o libelo de repúdio pensou em pedir, mas porque, imaginando que se cumpria nela o desígnio de um mistério divino, sentiu-se indigno de compartilhar daquele evento. O receio de ter Maria consigo não se devia a um motivo profano, mas porque, como qualquer homem justo da Bíblia, ele reagia diante de uma intervenção de Deus na história, como Moisés que tirou as sandálias diante da presença de Deus, como Pedro que, diante de Jesus, lhe pedia que se afastasse – assim também José quis se retirar, tendo o cuidado de não comprometer aquele mistério do Filho de Deus em Maria.

Sua angústia chegou a tal ponto que só uma luz do alto poderia tranqüilizá-lo. E foi o que aconteceu quando Deus intervindo, enviou-lhe um anjo com esta mensagem: “José, filho de Davi, não tenha medo de receber Maria, sua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e você o chamará com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1, 20 a-21).

Depois desta confirmação do céu, José fez o que o anjo lhe mandara e recebeu Maria em sua casa (Mt 1,24).

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE SÃO JOSÉ (VII)

José era apenas noivo, quando Maria concebeu em seu seio virginal Jesus, Filho de Deus. Devemos voltar no tempo e considerar que o povo hebreu costumava celebrar o casamento de modo diferente do que temos hoje. Primeiro se efetuava um contrato de casamento e, a partir daquele momento, a mulher-noiva passava para a jurisdição do esposo-noivo, embora continuasse vivendo ainda por um ano em sua própria casa com os pais. No ato do noivado, que era um contrato, o pai da noiva discutia as condições do casamento com o pretendente de sua filha. Depois, tudo era selado com as palavras solenes do pai da  moça: “De agora em diante você será meu genro”. Esse contrato dava aos desposados, embora não convivessem debaixo do mesmo teto, o direito ao ato conjugal e já constituía o início de um autêntico matrimônio. No livro do Deuteronômio (22,22-25) incrimina-se com pena de morte, por lapidação, a mulher-noiva quando apanhada em adultério. Além do mais, só era permitido ao homem divorciar-se de sua noiva mediante a apresentação de um libelo de repúdio, conforme determinava a Lei.

José não convivia com Maria quando ela concebeu Jesus. Isso ocorreu só depois que o anjo lhe apareceu e lhe elucidou todo o mistério da gravidez de sua esposa (Mt 1,24). Naturalmente, o compartilhar a vida debaixo do mesmo teto foi precedido de um segundo momento da celebração matrimonial, que era realizado com maior ênfase. Geralmente, essa solenidade era feita na quarta-feira ao cair do dia. Revestia-se de maior brilho, com a procissão de tochas luminosas formada pelos amigos do noivo e da noiva. A noiva, toda adornada com jóias – quase sempre emprestadas – esperava o noivo em sua casa, enquanto este era conduzido por um grupo de amigos para a casa da noiva, onde acontecia a festa ao som de instrumentos. Essa festa podia durar até vários dias.

Não sabemos se José e Maria prepararam toda essa solenidade conforme o costume da época, para celebrar seu casamento condignamente . O certo é que, como bons israelitas, celebraram esse acontecimento com muita consciência e na presença de Deus. Eles contraíram um verdadeiro matrimônio, tanto é verdade que os evangelistas Mateus e Lucas não hesitaram em chamar José “esposo de Maria” (Mt 1,16; Lc 1,26-27; 2,4-5). Maria é citada em Mateus como esposa de José quatro vezes (1,18.19.20.25). Portanto, entre eles existiu um amor perfeito, um afeto profundo.

Juntos, na humilde casa de Nazaré, compartilhavam do mesmo caminho de santidade, aspiravam à mesma esperança de manifestação do Messias, sujeitavam-se às mesmas provações da pobreza e do  trabalho esmerado do dia-a-dia. Apesar de toda a marginalização da mulher, comum àquele tempo, entre eles reinava uma harmonia perfeita: José nutria por sua esposa um afeto profundo e Maria, por sua vez, dava a seu esposo a resposta de obediência devida ao chefe de família. A presença de Maria, grávida de Deus, na vida de José, era para ele um dom inestimável. Podia sofrer as penúrias da pobreza, porém não lhe faltavam em momento algum a paz, a serenidade e o amor. Afortunado foi este carpinteiro, que teve o mérito de ser servido na terra pela Rainha à qual todos os anjos servem no céu.

Os dias transcorriam normalmente na vida do casal simples que morava no vilarejo de Nazaré. Humildes e sem alarde, eles cuidavam do maior dos tesouros sob aquele teto e se preparavam para mostrá-lo aos que aspiravam por sua manifestação. Mas, de repente, uma ordem do imperador César Augusto veio romper a  monotonia do povoado e a imperturbabilidade do casal: os emissários do imperador comunicavam que todos deviam apresentar-se no lugar de origem para o recenseamento. O governo de Roma queria ter em mãos o número de seus cidadãos espalhados pelo Império para, assim, poder  planejar melhor quanto podia arrecadar com as taxas e os pedágios estipulados pela Lei. Como José e Maria pertenciam à casa de Davi, deviam apresentar-se em Belém, lugar onde nasceu Davi.

Devido ao estado avançado de gravidez, Maria tinha motivos suficientes para não fazer aquela longa viagem até Belém, mas nenhum dos dois queria separar-se, sobretudo na iminência do particular momento do nascimento do Libertador. Por isso, Maria se pôs a caminho junto com José rumo a Belém. A atitude corajosa de Maria e a sensibilidade profundamente amorosa de José estavam levando a cumprimento a profecia de Miquéias, que séculos antes declarara: “E você, Belém, de modo nenhum é a menor entre as principais cidades de Judá, porque de você sairá o líder que reinará em Israel e cuja geração é desde o princípio” (Mq 5,2).

 

 CONSIDERAÇÕES SOBRE SÃO JOSÉ (VIII)

José e Maria, depois de terem percorrido durante três dias o caminho de Nazaré a Belém, perfazendo um total de aproximadamente 130 km, chegaram ao destino onde deviam inscrever-se, conforme a ordem do imperador. Era o recenseamento, e cada um tinha que se inscrever na cidade de origem de sua família. E a cidade de origem tanto de José como de Maria era Belém, a “cidade de Davi”. Ali José não procurou uma pensão, mas deve ter ido à casa de seus parentes, onde lhe devem ter oferecido um canto disponível. Sabemos que a tradição coloca o nascimento de Jesus numa gruta e isso, aliás, é comprovado hoje pelo movimento arqueológico que se encontra em Belém, um dos lugares sagrados que gozam da maior autenticidade. Mas afirmamos que José e Maria foram para casa de seus parentes. Como se explica isso?

Nas colinas de Belém existem numerosas concavidades naturais que servem tranqüilamente para morar. O exemplo disso é que ainda hoje os árabes utilizam essas concavidades incorporando-as em suas casas, fazendo, portanto, com que qualquer dessas “grutas” seja transformada, segundo os gostos de cada um, em parte de uma casa. Já o fato de Jesus recém nascido ter sido colocado por sua mãe em uma manjedoura é facilmente explicável pelo costume daquele tempo, onde, num lugar como Belém, por falta de algo melhor, se usava uma manjedoura, mesmo porque as exigências deles não eram as mesmas que temos hoje. Portanto, nada impede que a casa dos parentes de José tivesse um lugar como o que nos recordam os evangelhos: muito humilde. A pobreza e simplicidade em que Jesus desejou nascer indica muito bem o modo como Deus quis restaurar a sua aliança com os homens. De fato, Jesus desejou ser em tudo semelhante a nós, menos no pecado. Ele, “de condição divina, não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente, mas esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de servo, tomando a semelhança humana” (Fl 2,6-7).

Com a lição de humildade e pobreza que o Filho de Deus deu com seu nascimento, não devemos nos admirar que os primeiros destinatários de sua missão salvadora tenham sido os pastores, que estavam nas redondezas tomando conta das ovelhas, quando lhes apareceu o Anjo do Senhor e lhes comunicou esta mensagem: “Hoje, na cidade de Davi, nasceu o Salvador de vocês – Cristo, o Senhor. Esta será a prova: vocês encontrarão uma criancinha enrolada em panos numa manjedoura” (Lc 2,11-12).

Os pastores correram imediatamente para a gruta e encontraram Maria, José e o Menino, como o Anjo lhes havia anunciado. Os pastores levavam uma vida nômade e dormiam nas grutas da região, não gozando de boa reputação e, portanto, eram pouco considerados pelos demais. Tinham uma profissão “impura” para os judeus: trabalhavam com facas e bastões para defender suas ovelhas dos lobos e ladrões. Eram detestados sobretudo pelos fariseus, que aconselhavam o povo a não comprar o leite nem as lãs de suas ovelhas.

Junto com a visita dos pastores descrita pelo evangelho de Lucas, devemos a Mateus um particular, a visita dos Magos do Oriente. Os estrangeiros reconhecem Jesus recém-nascido como o Salvador com uma missão universal.

Depois de oito dias do nascimento, seus pais, conscientes de suas obrigações como bons judeus, tomaram o Menino e o apresentaram na Sinagoga para circuncidá-lo. A exigência desse ritual após o oitavo dia do nascimento do filho inspirava-se na legislação sacerdotal. Era com esse rito que a criança era incluída oficialmente no povo de Abraão e na história, nos costumes, na honra, na tradição e sobretudo na Fé do Povo da Aliança. Junto com o rito da circuncisão, era costume que os pais dessem o nome à criança. O rito da circuncisão podia ser feito na Sinagoga ou mesmo na casa dos pais. Eles escolhiam um “padrinho” que segurava a  criança durante a cerimônia. Dela participavam dez pessoas. Preparavam-se duas cadeiras, uma para o padrinho e outra para Elias, o profeta que, segundo se pensava, estava sempre presente em todas as circuncisões.

Este rito podia ser feito pelo pai, raramente era feito pela mãe. No caso de Jesus, foi José quem cumpriu tal operação. Enquanto se desenvolvia o rito, o “ministro da circuncisão” rezava as seguintes palavras: “Bendito seja o Senhor nosso Deus, que nos santificou com seus preceitos e nos possibilitou introduzir nosso filho na aliança de Abraão, nosso Pai”.

 

 CONSIDERAÇÕES SOBRE SÃO JOSÉ (IX)

 Com o ato da circuncisão, Jesus estava inserido na vida do seu povo, o povo da aliança de Moisés. Esta prescrição estava cumprida: agora Jesus estava registrado diante da autoridade civil e religiosa. Junto com a circuncisão, impuseram-lhe o nome de Jesus. Este fato era muito importante para a mentalidade do povo hebreu, pois o nome de uma pessoa designava a sua missão, encerrava o seu destino. Por isso,  antes de impor o nome a um filho, discutia-se na família como a criança deveria ser chamada. Impor o nome ao filho era direito fundamental dos pais pois, com isso, desenvolviam o sentido da autoridade sobre aquele filho. José lhe impôs o nome conforme era a  vontade de Deus e como o Anjo lhe comunicara: “Ela terá um filho, e você lhe dará o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21).

Cumprida esta prescrição da lei mosaica, restavam ainda outras determinações legais a serem cumpridas. Era preciso que o menino fosse apresentado no Templo e ali fosse realizada uma cerimônia em consonância com o costume da consagração dos levitas ao Senhor, conforme relata o Livro dos Números no capítulo oitavo. Neste rito da apresentação de Jesus no Templo, a participação de José foi fundamental, pois ele, como pai, era responsável pelo Menino, e por isso também devia fazer cumprir a observância da lei que lhe dizia respeito. Lembremos que, para a  mentalidade do seu povo, o pai tinha para com o filho o dever de circuncidá-lo, resgatá-lo perante o Senhor, ensinar-lhe a Torá, uma profissão e arrumar-lhe casamento.

O resgate era feito pelo pai mediante a oferta de cinco ciclos de prata à caixa do tesouro do Templo, o que equivalia aproximadamente a vinte dias de trabalho de um operário daquele tempo. Desde o momento em que o Anjo lhe havia transmitido, em nome de Deus, a ordem de aceitar Maria como sua esposa e de impor o nome ao Menino (Mt 1,21), José teria guardado, dia após dia, o preço do resgate de seu filho. Ele não tinha dúvida quanto a isso, pois se qualquer outro pai, diante da gravidez de sua esposa, não tinha certeza a respeito do resgate, porque podia lhe nascer uma filha, em vez de um filho, José sabia desde o início que o filho de Maria seria o primogênito, um filho chamado Jesus (Mt 1,21).

José, portanto, viveu à espera do primogênito, trabalhando materialmente para ele, porém sabendo espiritualmente que ele seria o Salvador do seu povo (Lc 2,30).

José era o sacerdote presente naquele grande ato: o santuário,  o altar, os cantos, as paredes e todo o cortejo inspiravam majestade e  religiosidade; e José, generoso e pronto na sua obediência, levantou os braços, apertando a tenra hóstia do sacrifício, e exclamou: “Pai eterno, eis o Menino que me destes em lugar de Filho. Eu o amo mais que a mim mesmo. Eu o adoro profundamente e com grandíssima reverência o reconheço como meu Deus. Nele eu vivo, nele eu existo, mas vós quereis que este querido e adorável dom seja sacrificado para o bem de todos os homens. E eu me prostro, ainda que com grande dor…”

 

 CONSIDERAÇÕES SOBRE SÃO JOSÉ (X)

 As prescrições relativas ao Menino junto ao Templo, na cidade santa de Jerusalém, estavam cumpridas. Mas restava ainda cumprir a lei referente à mãe. Conforme a Lei de Moisés, toda mãe era obrigada, após o parto, a se apresentar no Templo para se purificar. Com efeito, a mulher, após dar à luz, era considerada impura. Se o filho fosse menino, sua impureza durava quarenta dias e, se fosse menina, se estendia por oitenta dias. Durante esse período, a mulher-mãe não podia sair de casa e nem mesmo tocar nas coisas sagradas. Depois que esse prazo terminasse, ela devia comparecer no Templo Santo, para participar da cerimônia de purificação e ser declarada legalmente pura. Esse rito simples era acompanhado da oferta de um cordeiro de um ano para o sacrifício ou, quando a família era pobre, de um pombinho, para manifestar assim a expiação de seus pecados.

Depois de satisfeitas todas essas prescrições legais, conforme o costume da época, era hora de voltar para casa, para o trabalho do dia-a-dia. Mas, através da comunicação em  sonho de um Anjo a José, a Providência quis que ele, a mãe e o Menino não voltassem mais para Nazaré, mas  fugissem para o Egito. Devemos este particular da fuga e da conseqüente permanência no Egito à pena do evangelista Mateus. “Levante-se, pegue o Menino e fuja para o Egito. Fiquem lá até eu avisar, porque  Herodes está procurando o Menino para o matar” (Mt 2,13). Aqui, o evangelista se compraz em mostrar o nosso Patriarca exercendo seus direitos e suas funções de chefe da Sagrada Família. É para ele que o Anjo aparece, é com ele que o Anjo fala, é a ele que o lugar aonde devem ir é comunicado. Depois, será transmitida a ale a data de retorno à terra de origem.

A ordem de Deus para se exilar com a família foi cumprida de imediato com perfeição. Ainda de noite, ele empreende viagem rumo ao desconhecido, seguindo o mesmo destino de Abraão, que se refugiou neste país, e  de José do Egito, que procurou salvar-se ali das mãos de seus irmãos. Havia muito chão a percorrer, eram necessárias muita coragem e confiança em Deus, mas a ordem divina era que se exilassem nesta terra estrangeira, pois ali estariam em segurança, e seria dali daquele país famoso por suas tradições, suas cidades cheias de monumentos solenes e seus centros culturais e comerciais, que o Senhor seria chamado, como o profeta havia anunciado: “Do Egito eu chamei o meu filho” (Os 11,1). É por esse motivo que Mateus vê na fuga e na volta da Sagrada Família do Egito a realização da verdadeira libertação.

O Evangelho não nos dá a conhecer o lugar onde a família de Nazaré se estabeleceu. A informação de Mateus é de tal forma genérica que podemos satisfazer nossa curiosidade supondo que José apenas atravessou a fronteira do Egito,  no sul de Gaza, para se pôr em segurança e ficar fora do alcance de Herodes. Entretanto, são diversas as localidades que disputam a honra de ter hospedado a família migrante de Nazaré, entre elas Hehápolis, Abu Sarga, Koskam, Budaste e Matariyed. Todas essas reivindicações se baseiam em alguns elementos  convencionais como uma árvore, uma fonte, etc. O Evangelho apócrifo conhecido como Pseudo- Mateus fala que a Sagrada Família entrou numa cidade do Egito chamada Sotine, mas essa cidade é desconhecida pela Arqueologia. O que de mais plausível podemos afirmar é que Jesus, Maria e José se fixaram por algum tempo num dos bairros hebreus situados numa cidade próxima à fronteira oriental. Ali existia seguramente um comunidade de hebreus que deu a eles auxílio e conforto naquele país.

É evidente que a estada no Egito não foi nada fácil: o ambiente de trabalho era diferente, e até mesmo os costumes religiosos eram totalmente outros e contaminados de politeísmo. Os egípcios constituíam um povo que se distinguia pelo culto ao imperador, e adoravam um número de ídolos bastante elevado, entre eles o crocodilo, o falcão, o cordeiro e outros animais. Além do mais, existia um acentuado domínio de magia e de superstições, sobretudo no interior do país.

No exílio, o tempo que a Providência havia determinado para sua permanência foi passando, até que de novo o anjo do Senhor comunicou a José que deviam sair do Egito. Solícito como sempre, ele logo preparou tudo, pegou o menino e sua mãe e  se pôs a caminho em direção da sua terra de origem, para viver junto à sua gente simples de Nazaré. Voltar para a sua terra era um motivo de alegria, porém o clima por lá estava tenso e semeado de discórdia e violência, pois Arquelau, que assumira o lugar de seu pai Herodes, também era um tirano, com sede de poder, e a fama de suas atrocidades havia chegado também ao Egito. Como bom israelita, José gostaria de passar primeiro por Jerusalém, para visitar o Templo e dar graças ao Senhor antes de iniciar vida nova em Nazaré da Galiléia, mas preferiu não correr esse risco, colocando a vida do Menino em perigo.

 

 CONSIDERAÇÕES SOBRE SÃO JOSÉ (XI)

 Ao regressar do exílio do Egito com sua família, José se estabeleceu em Nazaré e recomeçou suas atividades de artesão; afinal, era esta a sua profissão. Ele não teve dificuldade de encontrar seu ambiente de trabalho na cidade de Nazaré e nas vizinhanças, pois, embora não fosse um  homem de cátedra, era muito prático e capaz de, nas ocorrências da vida, tomar decisões não só no que se referia a si, como também aos outros. Era bastante conhecido entre os nazarenos, e o período que passou longe de sua terra, sem manter contato com os parentes e conterrâneos, não foi suficiente para apagar da memória do povo a imagem daquele homem completo, com personalidade rica e responsável em seus deveres.

Sua pequena oficina, que por bom tempo permaneceu fechada e empoeirada, começou novamente a ser o ponto de encontro das pessoas, o palco sublime da presença de Jesus criança e iniciante na arte da carpintaria. De novo o barulho da serra e do martelo passou a despertar a atenção dos transeuntes e a dar um tom de vida à pacata cidadezinha. Como antes, as mãos habilidosas do carpinteiro de Nazaré eram requisitadas não só para fabricar uma mesa ou um par de cadeiras, mas também para abrir uma valeta no quintal de um vizinho, para consertar uma porta ou uma janela numa das poucas centenas de casas pobres do lugarejo, ou ainda para traçar com maestria e habilidade os fundamentos de uma nova construção.

Desta maneira, o dia-a-dia de José começou a tomar outra vez o ritmo, junto com sua castíssima esposa e seu filho, que “crescia robusto, cheio de sabedoria, pois a graça de Deus estava com ele” (Lc 2,40). Como qualquer criança do seu tempo, Jesus queria crescer, ser grande, por isso observava com atenção o comportamento de seu pai e de sua mãe e se mirava no seu exemplo para tornar-se como eles.

Será um aluno atento de José na carpintaria, aprendendo com esmero o manejo da serra e as pancadas certeiras do martelo. Sentir-se-á feliz aos sábados, ao deixar a labuta da oficina ou dos bancos da escola, para acompanhar o pai na Sinagoga, ficará admirado ao procurar seguir com atenção seus gestos e suas inclinações na casa de  oração, sentirá orgulho dele ao vê-lo encaminhar-se para a frente da Sinagoga, pegar o pergaminho da Palavra de Deus em suas mãos e proclamar em voz alta e altissonante a todos os presentes a Palavra do Senhor.

Será no convívio e na companhia dos pais que aprenderá o que é necessário para a vida, mas será também na Sinagoga, lugar rico de  ensinamentos, que irá compreender muitas coisas. Ali, atraído por sua curiosidade de criança, saberá que a pequena lâmpada, sempre acesa diante do armário que guarda sigilosamente os pergaminhos da Sagrada Escritura, simboliza a luz da lei divina ali presente, que ilumina a todos. Também na Sinagoga compreenderá que as estrelas de seis pontas significam o emblema de seu antepassado Davi, o grande rei que escreveu salmos belíssimos, muitos dos quais já tinha aprendido em casa nos joelhos de Maria, sua mãe, ou na companhia de seu pai na carpintaria.

Será em sua família, pequena escola de Nazaré, que Jesus aprenderá a rezar e santificar seu dia elevando os pensamentos a Deus com várias orações, tais como esta: “Bendito sejas Tu, eterno nosso Senhor e rei do universo, que fizeste de mim um israelita”.  Os pais, conscientes de sua responsabilidade de educadores, não se limitarão a transmitir os ensinamentos ao pequeno Jesus apenas em casa, mas o encaminharão todos os dias à escola sinagogal, onde ele terá como  livro os textos sagrados e como professor um rabi. Na escola aprenderá a recitar em voz alta o “Shemá”, a fórmula fundamental da fé do seu povo, e longos trechos do Pentateuco. Em casa, aos poucos, entenderá os episódios da  história do seu povo e, como toda criança, começará a amar os seus heróis estudados nos textos sagrados, como os Profetas, o poderoso José do Egito, Moisés – o grande líder que conduziu o seu povo da escravidão do Egito pelo deserto durante 40 anos até a terra prometida – e Davi, que em sua simplicidade abateu o gigante Golias…

Com José, Jesus aprendeu o significado das grandes festas religiosas, celebradas ao longo do ano. E, quando já havia completado 12 anos, teve a oportunidade de participar pela primeira vez dos festejos da Páscoa na cidade santa de Jerusalém. José preparou tudo para a  grande peregrinação: a comida, alguns panos, uma tenda para pernoitarem, o burrinho para transportar o que precisavam, pois afinal, eram quatro dias de viagem pelos montes de Judá e, em média, eles percorriam 35 km por dia.

Ao chegarem a Jerusalém, Jesus pode observar tudo pela primeira vez: o palácio de Herodes, com suas torres e muros; os mercadores que no pátio do Templo aproveitavam o grande fluxo de peregrinos; o formalismo dos fariseus, o seu modo de andar e de se vestir. O extraordinário número de peregrinos fazia com que a população, que era de 78 mil habitantes, aumentasse durante as festas para 150 mil ou mais pessoas. Ali tudo se confundia: costumes, língua e gente diferente misturados com doentes, coxos, cegos e pobres que aproveitavam os festejos da Páscoa para mendigar. Tudo isso, aos olhos de Jesus, adquiria um  colorido diferente.

Na véspera da Páscoa, todos se preparavam febrilmente, correndo aos mercados para comprar vinho e pão para a ceia. Os mercadores de animais vendiam incessantemente o cordeiro pascal, e também José e Jesus foram ao mercado para adquirir um cordeiro para  o sacrifício e para prover a celebração dos festejos pascais.

 

 CONSIDERAÇÕES SOBRE SÃO JOSÉ (XII)

 A família de Nazaré percorreu o mercado espalhado pela Cidade Santa. Para Jesus, tudo aquilo era muito diferente do ambiente de sua pacata Nazaré, causando-lhe admiração ao deparar com pessoas diferentes, com roupas e línguas diversificadas, circulando desordenadamente por todos os lados entre gritos de marcadores de animais que procuravam vender suas mercadorias, entre os berros e tumultos dos animais apinhados nas cordas e gaiolas… Depois de percorrer com o pai boa parte do mercado e feitas as compras, voltaram para a casa dos parentes onde estavam hospedados na ocasião. O dia já declinava, e todos  começavam a se recolher. Todo o trabalho era proibido. Grande parte do povo e dos peregrinos reunia-se no pátio do Templo para aguardar o sinal do início dos festejos pascais, que era dado pelo toque das trombetas do templo. Ali também se encontravam José e Jesus, juntos, na parte do pátio que competia aos homens. Também Maria, com outras mulheres,  encontrava-se do outro lado do pátio.

De repente todos silenciavam ao som das trombetas e imediatamente apareciam, em passos lentos e cadenciados, os sacerdotes e os levitas vestidos com longas túnicas de linho branco e faixas de cor azul, vermelha e púrpura. A grande procissão era encabeçada pelo Sumo Sacerdote, vestido de gala com vestes azuis bordadas em ouro e com um peitoral ligado a doze pedras preciosas, lembrando as doze tribos de Israel. O clima era de muita espiritualidade, acompanhada de cantos, salmos e orações. Diante da multidão presente, o Sumo Sacerdote,  no momento estabelecido,  tomava alguns animais e os imolava pronunciando as palavras da oferta.

Terminada a cerimônia, todos voltavam para casa e, noite adentro, ao redor da mesa, na companhia dos amigos e parentes, iniciavam a comemoração do rito doméstico da Páscoa. Junto à mesa estava o cordeiro assado,  junto com pães ázimos e ervas amargas. O cerimonial comportava bênçãos sobre o vinho e os alimentos, fazendo memória da Páscoa antiga, quando o povo saiu às pressas do Egito, libertando-se da escravidão do Faraó.

Jesus, como todas as outras crianças, acompanha a cerimônia com a curiosidade que é peculiar à idade e pergunta ao pai porque aquela noite é diferente, porque se comem pães ázimos e não fermentados, porque só verduras amargas e não outras, porque se come de pé e não sentado…

Então José, como qualquer outro pai, responde-lhe que aquela celebração era memorial do sacrifício da Páscoa, que o pão ázimo lembra a fuga rápida das terras do Faraó, pois não havia tempo para preparar um pão fermentado, as  ervas amargas lembram o alimento do deserto e as privações. E, assim, a festa continua durante a noite.

Os festejos prosseguem por dois dias. Nesses dias ninguém trabalha e a preocupação de todos é ir ao Templo para rezar. Também José permanece em Jerusalém com sua esposa e Jesus, com a preocupação de somente ir visitar o Templo e rezar. Para Jesus, tudo tinha sabor de novidade,  pois o Templo era diferente da sua Sinagoga de Nazaré: era grande e majestoso, e também muito rico. As cerimônias eram solenes e dirigidas pelo clero organizado, vestido com pompa e fazendo gestos imponentes. Jesus admirava tudo e José, sempre ao seu lado, procurava explicar tudo para Ele.

Quando terminavam os dias da grande solenidade, o pátio do Templo e as ruas de Jerusalém eram tomadas de uma grande agitação: os vendedores começam novamente a expor suas mercadorias nos lugares mais movimentados por onde os estrangeiros passam procurando algo para comprar. Curiosos buscam saber algumas notícias dos viajantes. Por ali também se misturam os fariseus, os saduceus e até os espiões do governo.

É tempo de voltar para casa. Por isso a Sagrada Família,  junto com os outros peregrinos de Nazaré, prepara-se para a viagem. A saída da caravana é marcada para o dia seguinte bem cedinho, em frente do Templo, partindo em grupos subdivididos de homens e mulheres.

No fim do primeiro dia, constata-se que Jesus não estava no meio deles. Maria pensava que ele se encontrasse no grupo dos homens e José julgava que ele estivesse com as outras crianças no grupo das mulheres. Não havia outra solução a não ser retornar a Jerusalém, apesar do cansaço, depois de um longo dia de caminhada.

Ao chegarem à Cidade Santa, buscam-no por todos os lados, mas só três dias depois conseguem encontrá-lo no átrio do Templo, entre os doutores da Lei, que o interrogam e se admiram com seu conhecimento sobre as leis sagradas, pois suas respostas revelam uma sabedoria e inteligência bem superior à das crianças de sua idade.

Quando o viram entre os doutores, José e Maria puseram-se a observá-lo. Em seguida, rompendo o círculo dos que o cercavam, Maria correu para abraçá-lo e dizer-lhe: “Meu Filho, por que você fez isto conosco? Seu pai e  eu estávamos angustiados procurando-o…” Mas eles não entenderam a resposta de Jesus, apenas a intuíram. E, sem mais perda de tempo, puseram-se a caminho para Nazaré.

 

 CONSIDERAÇÕES SOBRE SÃO JOSÉ (XIII)

Depois da peregrinação a Jerusalém, Jesus voltou para Nazaré e ali retomou sua vida de Menino obediente, crescendo em sabedoria, estatura e em graça, diante de Deus e dos homens, em companhia de Maria e de seu pai José. Aos 12 anos, tinha participado oficialmente da peregrinação ao Templo de Jerusalém, um fato notável e inesquecível em sua vida, especialmente pelo que tinha visto e ouvido e por sua participação nos tumultuados dias da Cidade Santa, culminando com as discussões com os doutores da lei no pátio do Templo, para a admiração de todos.

Outra grande experiência religiosa estava prevista para ele como israelita. Desta feita não mais na importante Jerusalém, nem no  suntuoso Templo construído por Salomão, mas na pacata e desconhecida Nazaré e numa simples e pobre Sinagoga, como as demais espalhadas pela Palestina. Orientado por Maria e José, Jesus aguardava este grande acontecimento com muita emoção, pois seria o dia em que completaria 13 anos, data em que seria considerado oficialmente adulto, tanto pela sociedade como pela comunidade religiosa. A partir daquele dia caberia a ele, como adulto, ler os textos sagrados na Sinagoga, da mesma forma como ele vira seu pai fazer muitas vezes com tanta simplicidade e respeito.

Além de ajudar José na carpintaria, Jesus freqüentava também a escola da Sinagoga, onde recebia uma preparação especial de seus professores para o cerimonial do grande dia, pois era preciso ensaiar bem o posicionamento diante do povo, assim como pegar os pergaminhos da lei e apoiá-los na estante, tendo na mão direita uma varinha, que servia para seguir as palavras do texto. José não deixou, como era dever de todo pai, de acompanhá-lo aos ensaios e de ajudá-lo em casa nos exercícios de leitura.

Por outro lado, Maria, sua Mãe, “orgulhosa” de seu Filho, preparava o novo manto para Jesus, ornado de  franjas e de rendas, para usá-lo naquele dia de festa. Tudo estava pronto, até o chefe da Sinagoga tinha pedido a Jesus que fosse na véspera da cerimônia à Sinagoga para explicar-lhe com mais detalhes o significado do que ia fazer.

Enfim, o dia esperado. Na Sinagoga, em companhia do pai, Ele recebe felicitações das pessoas que o conhecem, assim como dos parentes. Iniciada a função sagrada, o povo que lota a Sinagoga o acompanha com atenção, esperando ouvir pela primeira vez sua voz em público. Jesus está na frente, ao lado do chefe da Sinagoga, cobrindo a cabeça com seu “tallit”. Emocionado e com a voz um pouco trêmula, começa a leitura seguida de todo o ritual. É difícil prever o que naquele momento se passou no coração de Maria e de José, ao verem o próprio Filho de Deus anunciando as palavras do Pai, sem que os demais se apercebessem.

Terminada a cerimônia, depois do cumprimento de todos pela sua passagem oficial para a maioridade e dos parabéns pela desenvoltura na cerimônia, volta para casa em companhia dos pais e de alguns parentes. Maria prepara um almoço de festa para comemorar o fato.

A partir daí, Jesus passou mais anos junto com a família, preparando-se para a grande missão. Os evangelistas silenciam completamente sobre estes anos de sua vida transcorridos na humilde casa de Nazaré. Sabemos apenas que levou uma vida comum, não apresentando nada de  especial para a sua cidade de Nazaré. Fazia parte do povo, vivia no anonimato. Ademais, os moradores de Nazaré eram considerados desprezíveis, assim como todos os habitantes da Galiléia, chamada por sinal “Galiléia dos  gentios”, por causa dos contatos freqüentes que mantinham com a população não judaica.

Na oficina de Nazaré, com seu pai, acompanhou os acontecimentos por vezes tumultuados da história de seu povo, cujo governador, Arquelau, destacava-se pela crueldade, mostrando ter braço forte para governar. Seu comportamento de tirano gerou ódio e  descontentamento entre os judeus, criando uma certa rebeldia contra o governo de Roma, com movimentos de revoltosos comandados por líderes espontâneos, estendendo-se por todos os lados, inclusive em Nazaré, o que ocasionou repressões e muito sangue derramado.

Séforis,  uma simpática cidadezinha, que parecia mais a capital regional da Galiléia, foi praticamente destruída. Todos os rebeldes eram castigados impiedosamente pelos romanos com as penas mais supliciantes, tais como as da crucificação. Só nos arredores de Jerusalém foram levantadas nesta ocasião mais de duas mil cruzes. Também na planície do Esdrelon algumas cruzes foram plantadas, para serem vistas por todos.

Tudo isso deve ter sido acompanhado com atenção pelo povo simples do interior, e Jesus jovem certamente conversava sobre esses acontecimentos com seu pai e sua mãe. E aspirava, como qualquer cidadão do seu tempo, por uma verdadeira e completa libertação, que depois iria pregar com toda a veemência pelas terras da Palestina.

  

CONSIDERAÇÕES SOBRE SÃO JOSÉ (XIV)

Depois de ter analisado panoramicamente São José como  personagem histórico escolhido para uma grande missão que o caracteriza e de ter falado sobre sua existência como homem simples e humilde de Nazaré, na dinâmica do plano de salvação de Deus, concretizado na pessoa deste filho de carpinteiro, proponho-me agora, na seqüência de nossas “considerações”, apresentar, dentro dos limites destas páginas, São José na reflexão teológica e no culto vivido e  assimilado aos poucos pela Igreja e  por seus devotos.

Uma das primeiras afirmações que fazemos quando perguntamos quem é São José é justamente a de que São José é o Esposo de Maria. Portanto, esta característica específica de José, esposo de  Maria, deve ser analisada por nós conforme nos ensinam os evangelhos e nos explicam os teólogos em suas reflexões.

Tanto Mateus 1,1ss, como Lucas 1,2ss, declaram que São José é realmente esposo de Maria. Ele é mencionado ali com a palavra original “anêr”, que significa especificamente marido. Ora, para que José fosse realmente esposo de Maria, era necessário que houvesse entre os dois um verdadeiro matrimônio, o que para nós significa primeiro de tudo a união indivisível entre os cônjuges selada no amor.

Mas, além disso, o matrimônio coloca como fim a geração e a educação dos filhos, o que supõe necessariamente a união sexual entre marido e mulher. Se afirmamos que tanto Maria como José foram virgens, como podemos concluir que esse matrimônio foi consumado?

A resposta para uma questão tão intrincada nos é dada pelo grande teólogo Santo Tomás de Aquino, quando explicita com muita persuasão, em seu trabalho sobre o matrimônio, que este não consiste essencialmente na união sexual, mas naquilo que ele mesmo designou como “união conjugal”. Portanto, consentir com o matrimônio é concordar com a união sexual de maneira não explícita, mas  implícita. Assim, a integridade do matrimônio não fica prejudicada, caso não ocorra a união sexual, pois o exercício sexual do matrimônio entra na dinâmica da ação, e não é da  essência do próprio matrimônio, daquilo que ele é.

Por isso, “entre a Beatíssima Virgem Maria e São José existiu um estreito vínculo conjugal”, disse o Papa Pio IX, “pois Deus deu José como esposo à Virgem não só como companheiro de vida, testemunha de sua virgindade, tutor de sua honestidade, mas também para que participasse, devido ao pacto conjugal, da excelsa grandeza dela”.

São Jerônimo explica a conveniência do verdadeiro matrimônio entre José e Maria com as seguintes palavras: “Para mostrar a  descendência de Davi perante Maria, cujos descendentes deviam casar-se com pessoas da mesma família; para que Maria não fosse injustamente acusada de adultério e conseqüentemente apedrejada, conforme era o costume da época;  para que, na fuga ao Egito, Jesus e Maria tivessem um defensor e um sustentáculo; e para que Jesus, tornando-se homem em tudo semelhante a nós, exceto no pecado, tivesse o amor de um pai e também de uma mãe”.

Santo Tomás cita ainda outras razões da conveniência de Maria ter sido verdadeiramente casada com José, nas seguintes afirmações: “Para que ninguém tivesse motivo para negar que Jesus fosse seu filho legítimo; para que a sua genealogia, conforme nos relata o Evangelho, seguisse a linha masculina, para que José providenciasse como pai, porque o criou”. Este grande teólogo continua ainda afirmando que o casamento de José com Maria foi necessário para que o testemunho de José garantisse que Cristo nasceu de uma Virgem; para tornar dignas de crédito as palavras de Maria ao Anjo, quando declarou seu estado de virgindade, e para que na pessoa de Maria desposada e virgem e, podemos acrescentar, também na pessoa de José, sejam honrados a virgindade e o matrimônio.

Todos estes argumentos mostram de maneira clara que houve entre José e Maria um verdadeiro casamento. Resta-nos, contudo, responder ainda a uma objeção fundamental: teria Maria feito o voto de virgindade a Deus de um modo absoluto antes de se casar com José, já que, conforme era costume na época, toda moça casava e criava filhos? Tradições piedosas nos fazem pensar nisto. Mas podemos afirmar que Maria não teria feito isso, tendo em vista os costumes da época e, por isso, conforme outra vez nos esclarece Santo Tomás, Maria fez o voto de virgindade de forma condicionada, isto é, se esta fosse a vontade de Deus. Emitiu, portanto, o voto de virgindade absoluta só depois de estar casada com José e junto com ele, uma vez compreendido que isto estava realmente de acordo com a vontade de Deus. Portanto, Maria não fez o seu voto de virgindade antes do seu casamento com José, já que pelo casamento os cônjuges são  reciprocamente devedores um ao outro do exercício sexual e um não pode emitir voto de continência sem o consentimento do outro. Daí compreendemos muito bem o que já afirmamos: que o matrimônio, para ser verdadeiro, não comporta necessariamente o exercício sexual, porém a união sexual no matrimônio é um direito, um bem adquirido, tanto para o esposo como para a esposa.

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE SÃO JOSÉ (XV)

A instabilidade política reinante em seu país e o descontentamento crescente do povo com os dominadores romanos, marcaram profundamente as etapas da vida de Jesus adolescente e jovem. Contudo, estes anos obscuros vividos na insignificante Nazaré foram acompanhados pelos constantes e sábios conselhos de José Educador. O Papa João VI soube colher muito bem este aspecto educativo de  José no exercício do seu ministério, quando disse que “São José” é o  “tipo do Evangelho” que Jesus,  depois de deixar a pequena oficina de Nazaré e iniciar sua missão de profeta e mestre, anunciará como programa para a redenção da humanidade.

Jesus não aprendeu só a lei e a profissão de carpinteiro, mas  conheceu a fundo a vida do seu povo, ao qual iria depois anunciar a mensagem libertadora. José, o carpinteiro, transmitiu ao filho toda a sua experiência, tanto profissional como humana.

Os evangelistas não descrevem o convívio de Jesus com Maria e José ao longo dos anos de amadurecimento e preparação para o ministério, porém nada nos impede de imaginar que foram anos densos de significado, vividos no amor compartilhado entre esta “Trindade Terrestre”. Por sua vez, Maria era para os dois um ponto de referência,  um exemplo de doação sem limites.

Os anos passavam e José, fiel vocacionado, sentia que o tempo de sua partida deste mundo se aproximava. Restava-lhe uma última experiência, que devia transmitir ao filho, e era justamente a da morte.

Sua missão estava cumprida. Tudo o que o desígnio do Altíssimo lhe havia ditado estava perfeitamente consumado. Com o exercício de sua paternidade, ele tinha dado a Jesus “o estado civil, a categoria social, a condição econômica, a experiência profissional, o ambiente familiar, a educação humana”.

Agora Jesus estava pronto para assumir e levar a termo a missão para a qual tinha sido enviado.

Seus últimos momentos de vida foram sem dúvida alguma  repletos de paz, na certeza de que tudo em sua vida fora guiado pelo Senhor soberano. Em seu íntimo, via  passar a cena emocionante a que assistira no Templo de Jerusalém, quando o Menino fora apresentado, e o velho Simeão o tomara nos braços e exclamara: “Agora, Senhor Todo-Poderoso, podeis deixar o vosso servo ir em paz, conforme a promessa que fizestes, pois meus olhos viram a salvação que preparastes ante a face das nações...” José estava tranqüilo, pois “aquilo que numerosos reis e profetas desejaram escutar e não ouviram, foi concedido a ele, não só o viu e ouviu, mas o carregou, guiou em seus passos, abraçou, beijou e nutriu”.

Assim morreu aquele que teve a honra de compartilhar com Deus Pai o exercício da paternidade divina, aquele que Deus encontrou segundo o seu coração e a quem confiou com toda segurança o segredo mais misterioso do seu coração. Por isso, teve o privilégio de morrer entre os braços de sua Santíssima Esposa e de seu querido Filho. O último ato de sua vida foi cumprido no obscuro e pobre casebre de Nazaré, mas foi de relevância tão intensa que só este homem de missão única aqui na terra, dele pode ser protagonista.

A experiência da morte sempre traz solidariedade. Por isso seus familiares se reuniram para ajudar, desde Cléofas e sua esposa até os primos de Jesus, conhecidos como Simão, Tiago, José, Judas e seus irmãos.

Naquele dia, Nazaré parou para dar o último adeus ao grande amigo. Afinal, fora José quem nos longos anos de convivência com seu povo, tinha  deixado a sua marca de homem justo, prático e amigo de todos. Ajudara muitos a levantarem as quatro paredes de barro batido para construírem suas casas, consertara tantos arados, fabricara mesas, bancos e vários utensílios para o lar de quase todos os nazarenos.

Quanto à morte de José, a tradição das igrejas orientais costumava, desde os primeiros séculos da Igreja, ler com solenidade no dia 19 de março uma piedosa narração a respeito de sua morte com as seguintes palavras: “Chegara para José o momento de deixar esta vida. O Anjo do Senhor lhe apareceu e anunciou que chegara a hora de abandonar o mundo e ir repousar com seus pais. Sabendo que estava próximo o seu último dia, quis visitar pela última vez o Templo de Jerusalém, e ali pediu ao Senhor que o ajudasse na hora derradeira. Voltou a Nazaré e, sentindo-se mal, recolheu-se ao leito. Logo o seu estado se agravou. Entre Jesus e Maria, que o assistiam carinhosamente, expirou suavemente, abrasado no amor divino. Morte feliz! Como não seria doce e abrasada no amor divino a morte daquele que expirou nos braços de um Deus e da Mãe de Deus? Jesus e Maria choravam quando fecharam os olhos de José. E como deixaria de chorar aquele mesmo Jesus que choraria sobre o túmulo de Lázaro? “Vejam como ele o amava”, disseram os judeus. José foi não só um amigo, mas um pai querido e santíssimo para Jesus”.

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE SÃO JOSÉ (XVI)

Afirmamos que o matrimônio, para ser verdadeiro, não necessita forçosamente o relacionamento sexual entre os cônjuges. Por isso, o casamento de José com Maria, devido à sua particular singularidade, não teve o objetivo de gerar filhos, que no caso seria Jesus, mas sim Educar esse Filho.

Este matrimônio foi previsto por Deus Pai para tornar conveniente o  nascimento de Jesus. O nascimento de Jesus se dá no tempo e no espaço, mas Ele é de origem divina, e por isso não seria o casamento de José com Maria que iria determiná-lo, como acontece com todos os outros matrimônios, em que a  união entre o esposo e a esposa determina o nascimento do filho. O nascimento de Jesus, ao contrário, foi determinado pelo próprio Pai através deste casamento. O grande teólogo São Boaventura afirmou que “tudo aquilo que diz respeito ao matrimônio entre José e Maria se dá por uma disposição íntima do Espírito Santo”.

Diante deste argumento tão claro e de outros mais, aqueles que estudam estes temas, os chamados teólogos e josefólogos, não têm dúvidas em afirmar que o matrimônio entre José e Maria teve o objetivo de criar um ambiente para que Jesus fosse acolhido e educado. Foram as duas decisões, tanto de José como de Maria, que concorreram conjuntamente para que, mediante esse matrimônio, se realizasse a vontade suprema de Deus – a erupção do Verbo, da Palavra de Deus na História, a inserção de Jesus na família humana como Filho de Davi.

Afirmamos que o matrimônio entre José e Maria foi verdadeiro, mesmo com o voto de virgindade que ambos fizeram, e afirmamos também a conveniência desse matrimônio diante dos desígnios divinos em vista da salvação da humanidade preparada pelo Pai na pessoa de seu Filho Jesus. Mas fica uma pergunta: “Por que este matrimônio feliz foi realmente verdadeiro?” Esta pergunta gerou diversos estudos e muitos teólogos já tentaram respondê-la. É Santo Tomás de Aquino que afirma categoricamente que este casamento foi verdadeiro porque nele existem três elementos necessários para haver um matrimônio: a “Prole” ou o(s) filho (s), que no caso é Jesus, Filho unigênito de Deus Pai; a “Fidelidade”, porque o nascimento de Jesus dentro desse casamento não foi fruto de adultério, mas sim obra do Espírito Santo, conforme as palavras do Anjo; e o “Sacramento”, porque entre ambos houve uma indivisível união de vidas, o que caracteriza o sacramento (muito embora o matrimônio seja elevado a sacramento com as palavras de Jesus).

A vinda do Filho de Deus à Terra, acontecimento único em toda a História dos homens, é realizado com a mediação de dois simples e pobres membros do povo humilde: José e Maria. Eles foram designados como centros da história da Salvação e, de alguma forma, centro da história humana, enquanto que para realizar este seu imenso e surpreendente desígnio, Deus Pai desejou servir-se deles não como simples “auxiliares” mas, como bem expressou o Pe. Martelet “como testemunhas conscientes e, ao mesmo tempo, autores livres e  responsáveis”. Daí a necessidade de eles desenvolverem esta missão dentro de um autêntico e efetivo matrimônio. Deus Pai, certamente, nunca desejou Jesus sem o seu pai nutrício e, em consequência, nem Maria nem seu esposo, o que implica, necessariamente, um santo e verdadeiro matrimônio.

Por meio da união com Maria neste matrimônio, São José foi inserido dentro das duas realidades que existem em Jesus, a humana e a divina, participando delas, de alguma forma, junto com Maria. Assim, entre José e Maria aconteceu um relacionamento de profundidade e de intimidade sem precedentes na História. Pode-se então constatar, devido a esse matrimônio, a intimidade de nosso grande protetor com o Pai, o Filho e o Espírito Santo e, é claro, com Maria. Isto é algo que nem mesmo os Anjos alcançaram. O Pe. Sauvé, um especialista no assunto, afirmou: “Pode-se dizer que, devido ao seu casamento com Maria, ao reconhecimento que lhe deu o próprio Deus Pai, ao seu empenho e às preocupações paternas e de chefe da Sagrada Família, São José é como que o “Proprietário da Fonte da Graça”.

Evidentemente, se compreendêssemos melhor seus atributos e  sua dignidade, São José seria mais conhecido, apreciado e venerado pelos cristãos.

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE SÃO JOSÉ (XVII)

Tendo reconhecido que o Matrimônio entre José e Maria foi efetivamente verdadeiro e dentro dos planos de Deus, perguntamos agora como o nosso Santo viveu a virgindade dentro do Matrimônio. Já abordamos “en passant” que o voto de castidade entre ambos, dentro do matrimônio, foi perfeitamente normal, tendo em vista que a  união sexual não é a essência do matrimônio, mas sim a “União Matrimonial”. Por isso é opinião dos teólogos, baseados sobretudo no  grande doutor da Igreja, Santo Tomás de Aquino, que o que é fundamental dentro do matrimônio é o relacionamento de amizade, ou seja, que a máxima amizade entre um casal não se condensa apenas no ato sexual, mas sim na plena participação de toda a intimidade doméstica. Isto é algo de muito profundo, porque se traduz num afeto dirigido para o outro, querendo para ele o bem que se quer para si próprio, e isso implica que o afeto entre os dois cônjuges os torna quase um só coração, tendo o outro como um outro eu, comunicando-lhe a própria existência.

Levando em consideração esta base fundamental para que exista um verdadeiro matrimônio, podemos afirmar seguramente que José e Maria viveram um verdadeiro matrimônio, emitindo de comum acordo o voto de virgindade. Antes de tudo, porém, é bom sabermos que qualquer marido pode ser casto ou qualquer mulher pode ser casta, contanto que vivam aquelas leis morais próprias de seu relacionamento conjugal. Mas uma pessoa é virgem somente se se abstém de qualquer exercício consciente da sexualidade, por causa do Reino dos Céus. Faço questão de salientar a palavra consciente, pois não fazemos referência a um mero fato físico, mas sim a uma virtude cristã. Por isso, quando dizemos que São José foi virgem, queremos afirmar que ele praticou uma virtude conscientemente, a serviço do mistério da Encarnação de  Jesus.

Os evangelhos não nos falam abertamente da castidade de José, mas nos oferecem elementos essenciais para que possamos deduzir a  sua virgindade. Que São José foi casto é opinião unânime de toda a tradição da Igreja, salvo algumas raríssimas exceções. “É fé da Igreja – dizia São Pedro Damião – que não só a Mãe de Cristo foi virgem, mas também aquele que foi tido como seu pai”. Portanto, foram muitos aqueles que atribuíram virgindade perpétua a São José. Não faltaram contudo os que, devido ao fato de alguns dos evangelhos falarem de “irmão” e “irmã” de Jesus, atribuíram a São José um outro casamento. Porém, como já explicava São Jerônimo, estes “irmãos” do Senhor não passavam de parentes, pois toda a Sagrada Escritura comprova que se usava chamar de irmãos todos os primos. Somente São Paulo, em suas cartas, usa cerca de 130 vezes a palavra “irmão” para designar os cristãos.

Pode-se ainda objetar contra a virgindade perpétua de São José e não só dele, mas conseqüentemente também de Maria, fundamentando-se na passagem de Mateus 1,25 onde se lê: “José fez como o Anjo lhe ordenara e tomou consigo sua esposa, a qual, sem que ele a  conhecesse, deu à luz um Filho que se chamou Jesus”. Alguns, baseando-se no termo escriturístico “conhecer’, que significa a união carnal no relacionamento conjugal, afirmaram que José “conheceu Maria” ou seja,  teve relações sexuais com ela após o nascimento de Jesus. Porém, grandes luminares da teologia, como São Jerônimo e São João Crisóstomo, argumentam dizendo que a frase: “… ele a conheceu...” não indica de fato que ele a conheceu, mas que ela permaneceu intacta até o parto. O evangelho não tem a preocupação de esclarecer a virgindade perpétua de Maria e José, não faz referência ao futuro. Outros, baseados em Lucas 2,7, onde se lê que Maria concebeu seu filho “primogênito”, tentaram alegar a não virgindade de José e Maria. Mas, baseando-se na Sagrada Escritura, o próprio São Jerônimo explica que a palavra primogênito não quer dizer o primeiro entre vários filhos, mas simplesmente o primeiro. Portanto, São José e Nossa Senhora viveram perenemente a castidade de seu matrimônio.