Autor: José Antônio Bertolin, OSJ
No final do XVII Capitulo Geral dos Oblatos de São José em 2018, os Capitulares formularam uma súplica a Papa Francisco para que fosse proclamado para toda a Igreja católica “Um ano especial dedicado a São José”. As razões que levaram aos participantes desse Capítulo a fazer esse pedido foram expressas na Resolução 06 nessas palavras:“dado os tempos particularmente marcados pela dificuldade em crer, dadas as contínuas desordens que afetam o mundo e a Igreja, dada a contínua fragilidade a que as famílias estão expostas, dada a aproximação do 30º aniversário da Exortação Apostólica Redemptoris Custos de São João Paulo II e dada a aproximação do sesquicentenário do decreto Quemadmodum Deus, pelo Beato Pio IX…”. A finalidade da proclamação desse Ano Especial dedicado a São José tinha o intuito de “renovar a fé, a esperança e a caridade que se refletem na vida do Guardião do Redentor e chefe da família de Nazaré”.
Esse pedido foi apresentado ao Papa no dia 31 de agosto de 2018 por ocasião da audiência dos Capitulares com ele, e em seguida a Congregação dos Oblatos de São José recorreu às Congregações que se inspiravam no guarda do Redentor para apoiarem tal iniciativa assim como pediu o mesmo empenho aos bispos e aos leigos.
Para a alegria de todos nós no dia 8 de dezembro de 2020, dia da festa da Imaculada Conceição e da comemoração dos 150 anos da Quemadmodum Deus, o Papa Franciosco anunciou para toda a Igreja a abertura do Ano de São José e ao mesmo tempo publicou a carta Patris corde – Com o coração de Pai – destacando a paternidade de São José que com a qual ele fez de sua vida uma oblação de si mesmo como serviço a Jesus.
O Superior Geral dos Oblatos, Pe. Jan Pelczarski em carta dirigida a toda a família Josefino-Marelliana no mesmo dia da proclamação do Ano de São José, pediu aos Oblatos, Oblatas e Leigos para que vivam “esse ano de graça para crescer espiritualmente no amor ao grande Patriarca” e para viver o estilo marcante de humildade e operosidade de nosso patrono.
O Papa Francisco inicia a sua carta apostólica Patris corde afirmando que São José amou Jesus com o coração de pai e lembra que os evangelistas Mateus e Lucas relataram pouco sobre ele, mas o suficiente para compreender a sua função de pai e a missão que Deus lhe confiou. Designa em seguida o perfil desse humilde carpinteiro, esposo de Maria; homem justo e sempre pronto para cumprir a vontade de Deus que em obediência acolheu Maria como sua esposa e com ela viu o Messias nascer em Belém numa estrebaria e testemunhou a adoração dos pastores e dos magos.
Em seguida o Papa exalta o lugar que São José ocupa no magistério pontifício, superado apenas por Maria sua esposa assim como o seu lugar na história da salvação e como Padroeiro da Igreja Católica, proclamado por Pio IX, como padroeiro dos Operários, querido por Pio XII, como Guarda do Redentor, invocado por São João Paulo II. Lembra ainda que o povo o invoca como padroeiro da boa morte.
Francisco expressa o seu desejo de partilhar algumas reflexões pessoais sobre a figura extraordinária de São José tão próximo a nós. Esse desejo do Papa se intensificou durante o tempo da pandemia em que ele pode perceber que nossas vidas são sustentadas por pessoas comuns que não estão nas manchetes dos jornais, mas que marcaram as nossas vidas como os médicos, enfermeiros, trabalhadores comuns, policiais, sacerdotes, voluntários, pais, avós, professores etc, que se imolaram para o bem do próximo, que infundiram esperança e rezaram e que se solidarizaram…
Todas essas pessoas podem encontrar em São José, “o homem que passa desapercebido, o homem da presença quotidiana, discreta e escondida” – “um intercessor, um amparo e um guia nos momentos de dificuldade”. O Papa lembra que São José é para todos os que aparentemente se encontram escondidos ou em segundo plano, que estes têm um protagonismo na história da salvação.
Outro ponto ressaltado nessa carta é que São José é grande porque foi esposo de Maria e pai de Jesus e com isso colocou-se inteiramente ao serviço do plano de salvação de Deus fazendo de sua vida, como afirmou São Paulo VI, “um serviço, um sacrifício, ao mistério da encarnação e à conjunta missão redentora; em ter usado da autoridade legal que detinha sobre a Sagrada Família para lhe fazer dom total de si mesmo, da sua vida, do seu trabalho; em ter convertido a sua vocação humana ao amor doméstico na oblação sobre-humana de si mesmo, do seu coração e de todas as capacidades no amor colocado ao serviço do Messias nascido na sua casa”.
Devido a sua importante missão, São José sempre foi amado pelo povo e recebeu numerosas considerações com surgimento de igrejas, santuários, institutos religiosos, confrarias, dedicados a ele e inspirados na sua espiritualidade. Muitos santos e santas foram seus grandes devotos, viveram a sua espiritualidade, receberam inúmeras graças. A Igreja o honrou com muitas formas de devoção, particularmente no mês de março, nas quartas-feiras, etc.
O Papa lembra que com a sua obediência, José superou o seu drama e a angústia com gravidez incompreensível de sua esposa e sem questionar sobre as dificuldades foi para o Egito com o menino e sua mãe, não hesitando em obedecer as ordens do ano e depois regressa com obediência para a terra de Israel indo morar em Nazaré. José enfrentou a longa e incômoda viagem de Nazaré a Belém para o recenseamento e assim inscreveu Jesus no registro do Império, assim como cumpriu com solicitude o seu dever de pai quanto as prescrições da Lei (circuncisão de Jesus, purificação de Maria, resgate do primogênito).
Francisco ressalta que nos anos de vida oculta em Nazaré, Jesus foi educado na “escola de José”, sendo-lhe obediente e manifestando sua profunda fé em Deus e por isso “a fé que Cristo nos ensinou é a que vemos em São José, que não procura atalhos, mas enfrenta de olhos abertos aquilo que lhe acontece, assumindo pessoalmente a responsabilidade. O acolhimento de José convida-nos a receber os outros, sem exclusões, tal como são, reservando uma predileção especial pelos mais frágeis”,
O Papa ressalta também que “José é o homem por meio de quem Deus cuida dos primórdios da história da redenção; é o verdadeiro «milagre», pelo qual Deus salva o Menino e sua mãe”. Lembra a necessidade de usarmos a “mesma coragem criativa do carpinteiro de Nazaré” que soube ver na arrogância e na violência da perseguição de Herodes a maneira de transformar aquele problema numa oportunidade antepondo sempre a sua confiança na Providência.
A Sagrada Família teve que enfrentar problemas concretos como todos têm (casa para morar, emprego, migração, etc), e por isso o Papa vê em São José um padroeiro especial dos que devem deixar a sua pátria por motivos de guerra, perseguição ou miséria. Dessa maneira São José é invocado como protetor da Igreja, dos doentes, dos moribundos, dos exilados, dos miseráveis, dos necessitados, dos aflitos.
Outro aspecto que caracteriza José é a sua relação com o trabalho; ele era um carpinteiro que trabalhou para sustentar sua família. Com o seu trabalho Deus dignificou o trabalho, e hoje com a perda do trabalho que afeta tantos trabalhadores, sobretudo devido ao Covid 19, somos levados a empenhar para que ninguém fique sem trabalho.
O Papa fazendo referência ao livro de Jan Dobraczyński “A Sombra do Pai” o qual faz referência da figura de José que é para Jesus a sombra do Pai celeste protegendo e cuidando dele, lembra que não se é pai apenas porque colocou um filho ao mundo, mas poque cuida responsavelmente dele, e por isso sempre que alguém assume a responsabilidade pela vida de outro estará exercitando a responsabilidade da paternidade a respeito desse. No nosso mundo há muitos filhos órfãos de pais e a Igreja de hoje precisa de pais e “Todas as vezes que nos encontramos na condição de exercitar a paternidade, devemos nos lembrar que nunca é exercício de posse, mas «sinal» que remete para uma paternidade mais alta”.
O Papa afirma que o “objetivo desta carta apostólica é para aumentar o amor por este grande Santo, para nos sentirmos impelidos a implorar a sua intercessão e para imitarmos as suas virtudes e o seu desvelo”, mesmo porque a função dos santos não e só conceder graças, mas interceder por nós junto a Deus e de nos ajudar “a tender à santidade e perfeição do próprio estado”; eles são exemplos de vida para imitarmos, por isso a exemplo de São Paulo que exortava aos cristão para que fossem seus imitadores, “São José por meio do seu silêncio eloquente nos diz o mesmo; assim só nos resta implorar de São José, a graça das graças: a nossa conversão”, conclui o Papa.
No dia 8 de dezembro de 1870 o Papa Pio IX declarava São José o Patrono da Igreja católica e pedia aos fiéis para que pedisse o patrocínio daquele que “com ternura e amor paterno acompanhava Jesus que ‘crescia em idade, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens’”. De fato, Jesus, embora Deus ao assumir a nossa humanidade e fraquezas precisava da proteção de São José. Ciente dessa missão indispensavel de São José em relação ao menino Jesus e distante 150 anos depois e no mesmo dia dessa iniciativa de Pio IX, outro Papa, desta vez Francisco, reafirma a riqueza da paternidade de São José com a qual ele “fez de sua vida uma oblação de si no amor colocado a serviço do Messias”, presenteando aos fiéis com sua carta apostólica Patris corde e proclamando a abertura do Ano de São José.
Com essa sua iniciativa o Papa Francisco convidou aos cristãos para recorrer ao santo protetor da Igreja Católica o qual com a sua humildade e silêncio tem muito a ensinar para os homens do século XXI, porque ele viveu profundamente em união com Jesus, servindo diretamente a sua pessoa e a missão com o exercício de sua paternidade e colaborando com o mistério da nossa Redenção. Buscar inspirações para a nosa vida na escola de São José é adquirir forças para afrontar as dificuldades do dia a dia.
Por isso o Ano de São José será uma oportunidade para contemplarmos a sua fascinate pessoa com a sua missão; nos ajudará, como disso Francisco, a buscar a nossa conversão resgatando os valores fundamentais da nosa vida de cristãos e nos ajudará a resgatar os seus exemplos de dedicação aos interesses de Jesus e assim afirma o Papa que “Todos podem encontrar em São José, o homem que passa despercebido, o homem da presença quotidiana discreta e escondida, um intercessor, um amparo e uma guia nos momentos de dificuldade”.
Pe. José Antonio Bertolin

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